UNIDADE 01 – O MUNDO EGÍPCIO E O MUNDO SÍRIO 

OBJETIVO 
Conhecer a história de dois impérios: Egito e Síria, com informações sobre população, geografia e personagens bíblicos. 

CONTEÚDO 
1.1 O mundo egípcio 
1.1.1 História 
Sabe-se que o Egito tem uma das mais antigas civilizações humanas, bem como uma história muito antiga. Sua história é quase tão antiga como a do próprio ser humano. A presença do Egito na Bíblia é muito forte e, por isso, precisamos conhecer a história e geografia desse país. 
Bright informa que os indícios mais antigos de uma sociedade que vivia em aldeamentos têm sido datados da última parte do V milênio (4001 até 5000 a.C). Depois desta época, várias culturas foram identificadas de forma ininterrupta no Alto e no Baixo Egito. Brigth diz que estas culturas, se comparadas às da Mesopotâmia na mesma época, apresentavam um quadro pobre, mas ainda assim foram a base da sociedade desenvolvida que veio mais à frente. 
No IV milênio (3001 até 4000 a.C), o Egito já havia estabelecido algum tipo de governo unindo as diversas aldeias. Eles já faziam uso de trabalhos como drenagem e irrigação, conheciam e utilizavam o cobre, mantinham intercâmbio com Canaã e a Mesopotâmia. Já por volta de 2650 a.C., os egípcios tinham habilidades de engenharia e construíram pirâmides. Estas mostram que o povo era avançado. 
Sabe-se que os primeiros habitantes dessa região foram nômades. Após uma vida de peregrinações, eles começaram a organizar-se em pequenos estados. Essas unidades políticas conhecidas como nomos (divisão do antigo Egito: espécie de distrito ou província) foram agrupando-se e com o passar dos séculos formaram dois reinos: o Alto Egito (no sul) e o Baixo Egito (no norte). 
O Alto e o Baixo Egito eram bem diferentes no que diz respeito aos seus deuses, dialetos e costumes. Devido a essas diferenças, o Alto e o Baixo Egito travaram muitas lutas que enfraqueceram um ao outro. Assim, os dois reinos se tornaram fracos e vulneráveis a ataques externos. Consciente disso, Menés, rei do Alto Egito, conquistou o Baixo Egito; unificou o país estabelecendo a primeira dinastia e tornou Tinis a capital do império. Isso aconteceu em cerca de 3000-2780 a.C. e os reinos foram unidos em cerca de 3200 a.C. Assim, com o reino forte, iniciou a construção das grandes pirâmides. 
O poder do faraó começou a declinar por causa de revoltas ocasionadas pelos governadores dos nomos e, em meio ao caos, tribos asiáticas invadiram o país. O Egito conseguiu ficar organizado até a agressão dos hicsos (mistura de povos da região da Síria), que começou em cerca de 1785. Eles dominaram por cerca de 200 anos (até 1500). 
Foi com a expulsão dos hicsos que ressurgiu o Império Egípcio e possivelmente foi durante o Novo Império que os israelitas começaram a ser escravizados pelos faraós. Mesmo depois que os hicsos foram destronados, os governadores do Egito continuaram a oprimir os hebreus. Mais ou menos no período em que acontece a saída do povo de Israel, o Egito deixou de ser potência. 
Os gregos designam o Egito pelo nome de Aigyptos. Os cananeus chamavam o lugar pelo nome Misru e os hebreus, Misru ou Misraim (que significa “dois Egitos”). 

1.1.2 Povo 
  • Origem: conforme a Bíblia, Misraim era filho de Cam e irmão de Canaã, Pute e Cuxe (Gn 10.6.) Se os egípcios eram descendentes de Cam, então teriam uma origem asiática. As tradições mostram que eles provinham do sul da Arábia. 
  • Religião: a religião dos egípcios consistia na espiritualização da natureza; adoravam o sol e o rio Nilo. Possuíam diversos deuses. 

1.1.3 Geografia 
  • Localização: o Egito estava separado da Palestina pela Península do Sinai e pelos pântanos e lagos que havia entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. Atualmente o Egito está localizado no nordeste da África. Possui 96% de terras áridas. 
  • Rio Nilo: as chuvas na Etiópia traziam vida ao Egito. As enchentes do Nilo o tornavam fértil. Na época da inundação, o Nilo trazia coisas boas para os lavradores, pois regava um grande vale que variava de 1,5 a 32 quilômetros de largura. A inundação cobria a terra dos lavradores e deixava para trás uma camada profunda de lodo que lhes daria uma colheita abundante. A nação de Israel desenvolveu-se no Delta do Nilo, durante mais de 400 anos, sendo que os últimos anos foram de escravidão. 
  • Cidades: suas principais cidades são Menfis (a mais importante do Egito [norte]; os judeus que permaneceram na Palestina após a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor fugiram para Menfis), Tebas, Cairo, Alexandria e Siene (acima dela localizava-se a primeira das sete quedas d’água que impediam a navegação). 

1.1.4 Personagens e história bíblica 
a) Abraão e Isaque: o período dos patriarcas no Egito inicia-se com o surgimento de Abraão em Gênesis 11 e vai até Êxodo, com a lista dos filhos de Jacó. Abraão esteve no Egito em uma de suas viagens. Por fome, Abraão e Isaque desceram à terra dos faraós, onde Abraão quase perdeu sua esposa. Gênesis 15.13.16 mostra que ele ficou sabendo que a sua posteridade seria peregrina em terra alheia, escravizada e afligida por 400 anos. 

b) José: foi um personagem fundamental para que a família de Jacó chegasse até o Egito. Ele chegou no Egito como escravo quando foi vendido por seus irmãos (Gn 37.5-28) e ali tornou-se governador. Quando já era governador, houve grande fome em todo o mundo da época, mas na terra do Egito havia fartura: “... havia fome em todas as terras, mas em toda a terra do Egito havia pão” (Gn 41.54). 
Foi por causa desta crise que José mandou vir para o Egito toda a sua família que morava em Canaã (45.9-11; 46.8-26; 47.4). Assim, Jacó e sua tribo emigraram para o Egito e estabeleceram-se na terra de Gósen, região fértil do Egito. Ali eles foram protegidos (Êx 8.22; 9.26) até quando saíram para Canaã (47.6-11). A família de Jacó foi bem recebida no Egito devido à atuação de José no país. 

c) Moisés: foi criado pela filha do faraó como seu filho. Mais tarde, ele matou um egípcio e fugiu; porém, Deus o chamou de volta ao Egito, a fim de salvar o povo da escravidão (At 7.17-37). A saída dos descendentes de Jacó do Egito “... é o evento teológico e histórico mais expressivo do Antigo Testamento” (Merrill), pois mostra a ação de Deus em favor de seu povo. Ela mostra como Deus conduziu o povo da escuridão para a liberdade e da fragmentação a uma nação estabelecida. 

d) Israelitas: no Egito, Jacó e sua família viveram tranquilamente por longo período, mas com o passar do tempo houve muitas mudanças, tanto pela morte dos patriarcas como por questões políticas. Assim, um novo rei que não sabia nada sobre José assumiu o poder. 
Não há dúvidas de que os antepassados de Israel foram escravos no Egito e, também, que de lá escaparam de forma incomum. Mesmo não havendo testemunho direto nas narrações egípcias de que Israel esteve no Egito, uma tradição como esta ninguém poderia ter inventado. O fato de no meio israelita haver muitos nomes comuns aos egípcios pode ser consequência deste período que Israel viveu no Egito. 
Alguns dizem que Ramsés II pode ter sido o faraó que oprimiu os israelitas até que, após muito sofrimento, surgiu Moisés, o homem que Deus chamou para libertar o seu povo, quando então acontece o êxodo. 
O êxodo é difícil de datar. Há diferença no pensamento dos autores, surgindo duas propostas quanto a saída do povo do Egito. Uma diz que o povo saiu em mais ou menos 1450 a.C. e outra, chamada de êxodo tardio, diz que o povo saiu do Egito em mais ou menos 1280 a.C. Vale salientar que o livro de Êxodo mostra que ocorreram várias demonstrações de poder antes do povo sair do Egito. 
Foi no deserto que, para alguns autores, o povo tornou-se nação. Este foi o momento em que os descendentes de Jacó fizeram um pacto com Iavé e passaram a ser uma nação santa, separada para Deus, deixando de ser um grupo de clãs e se tornando um estado. 
No deserto, os israelitas receberam instruções detalhadas (Nm 1 – 10.10), que estavam ligadas à preparação para continuarem a viagem a Canaã. Ali muitas coisas aconteceram, a saber: rebeliões (Nm 16: Coré, Datã e Abirão); mortes (Nm 20: Miriã e Arão) e vitórias (Nm 21). Embora não seja possível fazer a reconstrução dos detalhes da peregrinação, foi ali que Israel recebeu a sua religião. 
Quando o povo entrou em Canaã iniciou-se o chamado Período dos Juízes. Este foi marcado por problemas: embora Israel estivesse estabelecido em Canaã, por terem se dividido em tribos as forças também foram divididas. Este foi um momento em que correram grande risco de deixar de existir como um povo independente. 
Os textos bíblicos revelam que foi um período de intensos combates e de crise externa e interna. Os juízes que atuaram foram: 1) Otniel; 2) Eúde; 3) Sangar; 4) Débora e Baraque; 5) Gideão; 6) Abimeleque; 7) Tola; 8) Jair; 9) Jefté; 10) Isbã; 11) Elon; 12) Abdon e 13) Sansão. Eli, Samuel e seus filhos não são mencionados em Juízes, mas também foram juízes. 
Após o período dos juízes iniciou-se o período da monarquia. Foi um momento difícil, pois o povo pedir um rei significava que estavam duvidando do cuidado de Deus. Samuel não aprovou e mostrou ao povo o que aconteceria (1Sm 8). Mas o povo não aceitou e iniciou-se então o período chamado Monarquia, que durou mais de 400 anos em Israel. A monarquia foi um período de crises e muitas lutas. Foi um período de auge mas também de perdas com a liderança de Saul, Davi e Salomão. 

1.2 O mundo sírio 
1.2.1 História 
A Síria ficava dentro dos limites estabelecidos pelas montanhas do Taurus. Inicialmente, a Síria era habitada por povos semitas, mas o território sofreu invasão de outros grupos étnicos, e ao longo da história dividiu-se em principados autônomos ou integrou impérios mais vastos. 
Durante o período da monarquia (reinados de Saul, Davi e Salomão), os sírios estiveram em constante combate com os reis de Israel, conforme descrição nos pontos a seguir. A antiga Síria existiu como unidade política somente no período dos selêucidas (312-281 a.C.). 
Quando aparecem no Antigo Testamento, “Síria” ou “sírios” indicam os arameus, pois Arã é a planície ocupada pelos sírios. 

1.2.2 Povo 
  • Cultura: os arameus deram grande contribuição com seu idioma. O aramaico foi adotado pelos hebreus no cativeiro e levado por eles a Canaã. Assim, veio a ser o idioma corrente na Palestina no tempo de Jesus. 
  • Religião: os principais deuses dos arameus eram várias formas de Baal. Mas havia também deidades de Canaã (como Astarte) e da Mesopotâmia (como Marduque). 

1.2.3 Geografia 
  • Localização: sua localização compreende as regiões chamadas Canaã e Arã. 
  • Cidades sírias
    • Arã-Naaraim ou Padã-Harã (Arão dos dois rios): localizada entre o Eufrates e o Tigre. Este é o local onde os patriarcas habitaram antes de sair para Canaã. 
    • Arã-Damascus: Davi lutou contra vários sírios deste local, matando-os (1 Reis 15.18). 
    • Arã-Zobá: Saul lutou contra os reis de Zobá (1Sm 14.47). Davi (2Sm 8.3; 1Cr 18.3) derrotou Hadadezer, filho de Reobe, rei de Zobá. 
    • Arã-Maaca: ficava ao oriente do Jordão, sendo protegida pelo monte Hermom (Js 13.5). 

Nos tempos de Saul, os arameus ou sírios que haviam habitado nesta região do Crescente Fértil estavam organizados em pequenos reinos independentes que levavam o nome de suas cidades principais. 

1.2.4 Personagens e história bíblica 
a) Os patriarcas: depois que saíram de Ur, os patriarcas hebreus fixaram-se na área da Mesopotâmia, em Harã (Gn 11.28-32). Uma parte da família permaneceu ali (Naor, Betuel e Labão) e outra parte foi para Canaã. 

b) As esposas de Isaque e Jacó: vieram de famílias de arameus, conforme Gn 24 e 26. 

c) Os israelitas: os israelitas descenderam de um arameu, conforme Dt 26.5. 

1.2.5 Israel e a relação com líderes dos estados arameus 
a) Os juízes (1300 a.C.): desde o período anterior à monarquia os estados arameus estiveram em disputa com o povo de Israel (Jz 3.7-10). 
b) Saul (1050 – 1010 a.C.): lutou contra muitos inimigos de Israel, entre eles os reis de Zobá, ao norte (1Sm 14.47). 
c) Davi (1011 – 972 a.C.): lutou com Hadadezer, rei de Arã-Zobá, ao norte de Damasco (2Sm 8.3-7). Dali por diante Davi foi senhor de toda a Síria (2Sm 8.13.19; 2Sm 10.1-8). 
d) Salomão (972 – 935 a.C.): ele dominou Hamate-Zobá e edificou ali cidades.armazéns (2Cr 8.3-4). 
e) Asa e Ben-Hadade (897 a.C.): quando Asa, de Judá, foi atacado por Baasa, de Israel, buscou ajuda de Ben-Hadade I (1Rs 15.18-20; 1Rs 20.13-32). 
f ) Jorão, filho de Acabe (843-796 a.C.): lutou contra Hazael (2Rs 8.28-29). 
g) Jeú contra Hazael: conforme 2Rs 10.31-32, Jeú foi ferido por Hazael, rei da Síria, em todas as suas fronteiras. 
h) Jeoacaz, filho de Jeú, contra Hazael e Ben-Hadade: conforme 2Rs 13.1-5, Hazael, rei da Síria, e seu filho Ben-Hadade oprimiram a Israel todos os dias de Jeoacaz. Mas Deus havia prometido por meio de Eliseu que Jeoás recuperaria as terras das mãos de Ben-Hadade (que reinou em cerca de 796 a.C.), conforme está registrado em 2Rs 13.15-19, e assim ocorreu. 
i) Acaz: enquanto Peca reinava em Israel (800 a.C.), Acaz reinava em Judá, reino do Sul (2Rs 16.1). Conforme 2Rs 16.2, Acaz não fez o que era bom aos olhos do Senhor; então, subiu Rezim (2Rs 16.5), rei da Síria, com Peca, rei de Israel, contra Jerusalém, porém não puderam vencê-lo. O rei Rezim tomou Élate, lançou fora os judeus e os sírios ficaram habitando ali (2Rs 16.6). Acaz então pediu ajuda para Tiglate-Pileser, rei da Assíria, pedindo que ele o livrasse das mãos do rei da Síria e das mãos do rei de Israel (2Rs 16.7). Tiglate-Pileser ajudou Acaz atacando Damasco, matando o rei sírio Rezim e levando o povo para Quir, na Assíria. 

REFERÊNCIAS E SUGESTÕES DE LEITURA 
ANDRADE, Claudionor. Geografia bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. 224 p. 
BRIGHT, J. História de Israel. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2003. 
GUSSO, Antônio Renato. Panorama histórico de Israel para estudantes da Bíblia. 4. ed. Curitiba: A. D. Santos, 2010.  
MERRILL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento: o reino de sacerdotes que Deus colocou entre as nações. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. 
PACKER, J.; TENNEY, M.; WHITE, W. O mundo do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1996. 188 p. 

História e Geografia Bíblica

Conheça a história e a geografia por trás dos eventos relatados na Bíblia